Olhou para a paisagem à sua frente e viu o mundo, sentiu o vento que vinha do vale abaixo e o cascalho sob os sapatos. Imaginou todas as coisas que ainda poderia conquistar e notou, com um sorriso, que já havia alcançado tudo que queria.
Sempre foi um homem obstinado, ainda criança descobriu o que queria fazer para o resto de sua vida e, logo após a constatação, pediu um violão, pediu um violão emprestado. Começou a tocar imediatamente.
Fez faculdade de música, não que precisasse, já tinha tido aulas particulares, tocou em várias bandas, chegando a ter relativo sucesso em uma delas, chamando a atenção de alguns produtores.
Gravou discos, fez carreira solo, teve filhos e uma esposa. Teve uma vida feliz.
Ligou o amplificador no carro, plugou a guitarra, um modelo estranho, com uma cor pouco comum e tocou duas músicas, uma dos Beatles e outra de Pink Floyd. O som se espalhou pela vastidão e, com a música, ele viajou. Lembrou os sonhos de infância, as mulheres que teve, os amigos que o acompanharam, todos aqueles pequenos momento que nos fazem ter a vida, propriamente dita, não apenas uma sucessão de eventos ordinários.
Viu, como se tivessem ocorridos há alguns minutos antes, seu primeiro dia de aula, o dia que brigou com o melhor amigo e, logo depois, fizeram as pazes, o mesmo amigo que, muitos anos depois, despediu-se e viajou, nunca mais sendo visto.
A primeira vez que viu sua primeira namorada, o primeiro beijo e a primeira vez que chorou por uma mulher que o deixava.
Sentiu, como se tivesse naquele momento acariciando as curvas das mulheres com as quais deitou, o gosto de cada uma, olhou mais uma vez para elas e sentiu a dor nos olhos de algumas quando sabiam que aqueles braços não dariam mais o abraço que tinham se acostumado, que aqueles braços tinham esgotado os afagos para cada uma e nunca mais o veriam.
Tocou o último MI naquela guitarra, a primeira, e achou algo de poético em levá-la para o lugar que foi, por muitos anos, seu paraíso. Sua primeira fazenda, que comprou com o dinheiro do primeiro disco, gravado com aquela mesma guitarra.
Aquele disco era uma união de músicas estranhas, pensou, mas combinava com o instrumento que tinha nas mãos, e o público gostou, a gravadora mais ainda.
Teve muitas posses e muitas pessoas o serviram, agora havia dispensado todos, inclusive o motorista que dirigiu quase todos os carros de sua coleção, tinha sido seu empregado por 21 anos. Costumava dizer que esse era o tempo de uma vida.
Levantou e sorriu, tirou as pulseiras, os anéis e se despiu. Dobrou as roupas e colocou uma pedra em cima, para que não voassem.
Caminhou em direção à encosta, abriu os braços e deu seu último passo, notou que tinha tudo que sempre quis, não havia mais nada a ser conquistado, viu a vida completa que teve e voou, sentiu o vento nos cabelos longos.
Morreu de braços abertos, com todas as batalhas ganhas, com todas as conquistas feitas.
Foi feliz.
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Olá a todos que lêem esse blog, de agora em diante, após os contos, vou colocar um comentário sobre o que me levou a escrevê-lo e o processo que o trouxe à vida.
Vôo surgiu há +- 3 meses, numa aula, não me perguntem por que, apenas me veio à mente uma pessoa caindo de um abismo e sorrindo. Achei a idéia interessante e a desenhei (porcamente, admito). Depois de algum tempo, comecei a me perguntar os motivos que levariam uma pessoa a cair como aquele corpo caía em minha mente e a idéia foi surgindo.
No dia que comecei a rascunhar as primeiras letras, estava com duas músicas se repetindo sem parar na minha cabeça, uma era “While my Guitar Gently Weeps” dos Beatles, e só a parte que ele fala
“I look at the world and I notice it’s turning
While my guitar gently weeps
With every mistake we must surely be learning
Still my guitar gently weeps”
Parecia que nunca mais sairia e me deixaria insano, creio que era ela pedindo pra ser colocada num papel e, na primeira oportunidade ela foi parar na folha branca à minha frente. Pensei até em colocar o nome da música, afinal.. era uma guitarra, o cara ia se matar, a guitarra estava chorando, gostei disso, mas a outra música era “The Great Gig In The Sky” , música maravilhosa do Pink Floyd, entretanto o que mais chama a atenção nela é a voz da cantora e nem guitarra tem, por isso não coloquei os nomes.
Bem, por enquanto é só. Esperem até sexta, que tem um conto em duas partes bem interessante.

11 comentários
Feed de comentários deste artigo
18/02/2009 às 2:29 am
Marina
Como eu jah te disse, adorei. Achei muito bem escrito: emotivo, sem ser meloso, e preciso, sem ser óbvio. Tá ótimo. bju
18/02/2009 às 3:09 am
Marcella Castro
Muito bom! Uma conto nada comum e muito bem escrito! Beijos!
18/02/2009 às 4:30 am
Liza
Muito bom moço!
gostei mais do seu comentário. rsrs
acho que pq prefiro saber o que sentem,
pq acontece e pra quê. Bj
18/02/2009 às 4:23 pm
Diih
Nossa…muito interessante, ao lê-los dá para imaginar “visualizar” as cenas que você foi descrevendo, além de sentir as sensações pelas quais cada personagem estava passando, que dom você tem! Muitos podem escrever contos e histórias, porém, poucos tem o dom de cativar o leitor. Mas fiquei admirada com esse seu “poder”.
Para mim será uma honra sempre visitá-lo, e assim, poder desfrutar da leitura de seus contos.
Beijos e parabéns!!!
18/02/2009 às 8:44 pm
PenDRaGoN
valeu, espero continuar escrevendo coisas inusitadas =)
18/02/2009 às 8:45 pm
PenDRaGoN
por isso escrevo os comentários, notei que leio uma webcomic, praticamente pra lê-los então, pq não fazer o mesmo aqui?
18/02/2009 às 8:45 pm
PenDRaGoN
Muito obrigado =)
19/02/2009 às 12:05 am
Alice
sem comentários…ficou muito lindo o texto!
bjoo!
PenDRaGoN > Muito obrigado e, não esqueça, sexta tem mais =)
19/02/2009 às 9:26 pm
Mila
Amei!
Uma historia cativante, bem escrita e muito interessante!
beijo!
PenDRaGoN > Muito obrigado e sexta tem mais =)
20/02/2009 às 10:51 pm
Clara Percílio
Lendo o texto só lembrei dessa animação… é diferente, mas a sensação que passa é parecida…
http://www.youtube.com/watch?v=sdUUx5FdySs
adorei o texto. vc escreve mto bem…
=*
PenDRaGoN> adoro animações e gostei muito dessa, e realmente, em algo que se aproximam
09/12/2009 às 5:14 am
picles
gostei das imagens que a história proporciona, mas não do que acontece nela mesma. é um fim triste.
sabe, sem os comentários eu já acho que seria mais interessante. =P a imaginação é um pouco guiada dessa forma, e acaba tornando o conto menos interessante.
mas enfim, gostei mais desse que do de cima. e não tô falando pra babar teu ovo. =*